O filme Blade Runner – O Caçador de Andróides[1] tem como cena de abertura uma imagem panorâmica da cidade americana de Los Angeles (Califórnia), com uma trilha musical (eletrônica), que passa ao mesmo tempo o sentimento de apogeu e avanço tecnológico da civilização humana como também a sua degradação natural, moral e espiritual, no sentido humano do termo, em detrimento de uma tecnologia que não serve para proporcionar conforto ou luxo, mas sim a sobrevivência da sociedade em um ambiente inóspito e insalubre, seja ela na terra ou nas colônias extraterrestres empreendidas pelos humanos.
Na Los Angeles de 2019, a sociedade humana inicia sua transferência para colônias extraterrestres com o intuito de manter o processo de propagação da existência a partir de uma nova sociedade (que não é apresentada no filme) colonial de exploração e povoamento, em que a mão de obra é desenvolvida por réplicas humanas, conhecidas como Replicantes[2].
Após o sistema capitalista exaurir os recursos naturais do planeta terra, e levá-lo para um desequilíbrio ecológico (os animais domésticos em sua maioria são réplicas desenvolvidas pelo avanço genético, vendidos por preços elevados), o planeta inicia a exploração espacial com o intuito de manter a continuidade do modo de produção por meio de trabalhadores perfeitos (Nexus 6, o modelo mais avançado de Replicantes).
Trabalhando como escravos, os Nexus 6, são programados para executar as tarefas laborais sem questioná-las no curto prazo, porém ao término de seu curto ciclo de vida (4 anos, que servem como dispositivo de segurança para evitar questionamentos existenciais[3]), criam e amadurecem emoções e sentimentos, quando são levados automaticamente à morte, o que evita a reivindicação de liberdade (de acordo com o amplo conceito filosófico).
O planeta terra apresenta-se degradado, com escassos recursos energéticos, poluído, com uma superpopulação pobre, formada em sua maioria por chineses, árabes e doentes, que não possuem condições legais (doenças) e econômicas para iniciar uma viagem espacial para usufruir a nova vida e nova sociedade fora do insalubre planeta de chuva ácida.
O filme sendo colocado à perspectiva da obra “O Direito à Preguiça” de Paul Lafargue[4], tem o avanço tecnológico de 2019 como resultado da busca pelo “Direito à preguiça”, como demonstrado no seguinte trecho da obra de Lafargue (p. 44):
Se, diminuindo as horas de trabalho, se a conquista para a produção social, novas forças mecânicas, obrigando os operários a consumir seus produtos, conquistar-se-á um enorme exército de forças de trabalho.
A substituição da mão de obra humana pela Replicante (a mais sofisticada máquina), resulta numa população pobre, que atua por meio de uma economia informal apresentada ao longo do filme, o que proporciona à ela, uma péssima qualidade de vida.
A conquista do desenvolvimento tecnológico apresentado no filme é a supremacia da moral dogmática capitalista, em que o capitalismo alcança o que Lafargue caracteriza como a supressão das alegrias, paixões, condenando a força trabalhadora em uma máquina entregando-se ao trabalho “sem tréguas e nem piedade”: Eis os Replicantes.
O filme demonstra talvez, que a necessidade de substituição da mão de obra humana, dá-se pela necessidade dos seres humanos entregarem-se todo o seu tempo ao pensamento, como forma de encontrar a solução necessária para preservação da espécie, num planeta que se encontra com sua natureza em colapso ameaçando a vida, em que Lafargue demonstra essa possibilidade referindo-se aos antigos filósofos clássicos, que “só tinham desprezo pelo trabalho: só aos escravos era permitido trabalhar, o homem livre só conhecia os exercícios físicos e os jogos da inteligência”.
Porém, muitos homens de inteligência (especialmente os engenheiros genéticos, responsáveis pela produção de pesquisas para construção de Replicantes), são apresentados no filme à margem da sociedade humana, como é o caso do cientista que desenvolve pesquisas para a visão dos Replicantes ou o cientista que desenvolve animais artificiais.
Lafargue inteligentemente na sua obra, fala do vício do trabalho e paralelamente ao filme fica demonstrado um importante trecho de sua obra (LAFARGUE, 1999, p. 20):
Trabalhem, trabalhem, proletários, para aumentar a fortuna social e as vossas misérias individuais, trabalhem, trabalhem, para que, tornando-vos mais pobres, tenham mais razão para trabalhar e para serem miseráveis. Eis a lei inexorável da produção capitalista.
É diante deste contexto que resulta a decrépita sociedade humana apresentada no filme. O proletariado, após séculos de “vício” ao trabalho, após o uso de todos os recursos naturais pelo capital, resulta o abandono do exército de reserva trabalhador num planeta em processo de evacuação, confirmando a passagem de Lafargue em sua obra, quando fala que “a paixão cega, perversa e homicida do trabalho transforma a máquina libertadora em instrumento de sujeição dos homens livres: a sua produtividade empobrece-os” (p. 27).
O medo de não trabalhar do proletário no dogma capitalista, pode ser combinado com o medo que é colocado pelo andróide líder (Roy), quando no filme fala que “viver com medo é viver como escravo”, decretando a necessidade do Direito à preguiça, não só como forma do descanso do trabalho, mas também como a necessidade inalienável de ter o tempo necessário para compreender a existência e passar esse conhecimento adiante, motivo pelo qual os Replicantes rebelam-se e voltam à terra, o que dá o enredo ao filme e é sacramentado pela última fala do Replicante líder:
Eu vi coisas que vocês nunca acreditariam. Naves de ataques em chamas perto da borda de Orion. Vi a luz do farol cintilar no escuro, na Comporta Tannhauser. Todos esses momentos se perderão no tempo como lágrimas na chuva.
No final a grande experiência e ensinamento deixados pelos Replicantes é a necessidade da mesma coisa que Lafargue defende em sua obra:
...desde há um século que o trabalho forçado quebra os seus ossos, magoa as suas carnes, dá cabo dos seus nervos; desde há um século que a fome torce as suas entranhas e alucina os seus cérebros!
[1] É um filme norte-americano de 1982, do gênero ficção científica, realizado por Ridley Scott, e ilustra uma visão futurística de Los Angeles em novembro de 2019.
[2] O filme descreve um futuro em que a humanidade inicia a colonização espacial, para o que cria seres geneticamente alterados, andróides batizados como “replicantes”, que são utilizados em tarefas pesadas, perigosas ou degradantes nas novas colônias extraterrestres
[3] Para a Tyrrel Corp, fabricante dos Replicantes no filme, o intuito do avanço tencnológico na produção dos andróides Nexus 6 é fazê-los “mais humanos que humanos”, logo, sofrem um questionamento mais incisivo sobre a razão existencial, como os humanos.
[4] O Direito à Preguica é um panfleto político escrito por Paul Lafargue que polemiza com as visões liberais, conservadores e até marxistas do trabalho