sexta-feira, 17 de junho de 2011

LOS ANGELES 2019: Uma análise do filme "Blade Runner, o caçador de andróides" com base na obra "Direito à Preguiça" de Paul Lafargue

O filme Blade Runner – O Caçador de Andróides[1] tem como cena de abertura uma imagem panorâmica da cidade americana de Los Angeles (Califórnia), com uma trilha musical (eletrônica), que passa ao mesmo tempo o sentimento de apogeu e avanço tecnológico da civilização humana como também a sua degradação natural, moral e espiritual, no sentido humano do termo, em detrimento de uma tecnologia que não serve para proporcionar conforto ou luxo, mas sim a sobrevivência da sociedade em um ambiente inóspito e insalubre, seja ela na terra ou nas colônias extraterrestres empreendidas pelos humanos.
Na Los Angeles de 2019, a sociedade humana inicia sua transferência para colônias extraterrestres com o intuito de manter o processo de propagação da existência a partir de uma nova sociedade (que não é apresentada no filme) colonial de exploração e povoamento, em que a mão de obra é desenvolvida por réplicas humanas, conhecidas como Replicantes[2].
Após o sistema capitalista exaurir os recursos naturais do planeta terra, e levá-lo para um desequilíbrio ecológico (os animais domésticos em sua maioria são réplicas desenvolvidas pelo avanço genético, vendidos por preços elevados), o planeta inicia a exploração espacial com o intuito de manter a continuidade do modo de produção por meio de trabalhadores perfeitos (Nexus 6, o modelo mais avançado de Replicantes).
Trabalhando como escravos, os Nexus 6, são programados para executar as tarefas laborais sem questioná-las no curto prazo, porém ao término de seu curto ciclo de vida (4 anos, que servem como dispositivo de segurança para evitar questionamentos existenciais[3]), criam e amadurecem emoções e sentimentos, quando são levados automaticamente à morte, o que evita a reivindicação de liberdade (de acordo com o amplo conceito filosófico).
O planeta terra apresenta-se degradado, com escassos recursos energéticos, poluído, com uma superpopulação pobre, formada em sua maioria por chineses, árabes e doentes, que não possuem condições legais (doenças) e econômicas para iniciar uma viagem espacial para usufruir a nova vida e nova sociedade fora do insalubre planeta de chuva ácida.
O filme sendo colocado à perspectiva da obra “O Direito à Preguiça” de Paul Lafargue[4], tem o avanço tecnológico de 2019 como resultado da busca pelo “Direito à preguiça”, como demonstrado no seguinte trecho da obra de Lafargue (p. 44):

Se, diminuindo as horas de trabalho, se a conquista para a produção social, novas forças mecânicas, obrigando os operários a consumir seus produtos, conquistar-se-á um enorme exército de forças de trabalho.

A substituição da mão de obra humana pela Replicante (a mais sofisticada máquina), resulta numa população pobre, que atua por meio de uma economia informal apresentada ao longo do filme, o que proporciona à ela, uma péssima qualidade de vida.
A conquista do desenvolvimento tecnológico apresentado no filme é a supremacia da moral dogmática capitalista, em que o capitalismo alcança o que Lafargue caracteriza como a supressão das alegrias, paixões, condenando a força trabalhadora em uma máquina entregando-se ao trabalho “sem tréguas e nem piedade”: Eis os Replicantes.
O filme demonstra talvez, que a necessidade de substituição da mão de obra humana, dá-se pela necessidade dos seres humanos entregarem-se todo o seu tempo ao pensamento, como forma de encontrar a solução necessária para preservação da espécie, num planeta que se encontra com sua natureza em colapso ameaçando a vida, em que Lafargue demonstra essa possibilidade referindo-se aos antigos filósofos clássicos, que “só tinham desprezo pelo trabalho: só aos escravos era permitido trabalhar, o homem livre só conhecia os exercícios físicos e os jogos da inteligência”.
Porém, muitos homens de inteligência (especialmente os engenheiros genéticos, responsáveis pela produção de pesquisas para construção de Replicantes), são apresentados no filme à margem da sociedade humana, como é o caso do cientista que desenvolve pesquisas para a visão dos Replicantes ou o cientista que desenvolve animais artificiais.
Lafargue inteligentemente na sua obra, fala do vício do trabalho e paralelamente ao filme fica demonstrado um importante trecho de sua obra (LAFARGUE, 1999, p. 20):

Trabalhem, trabalhem, proletários, para aumentar a fortuna social e as vossas misérias individuais, trabalhem, trabalhem, para que, tornando-vos mais pobres, tenham mais razão para trabalhar e para serem miseráveis. Eis a lei inexorável da produção capitalista.

É diante deste contexto que resulta a decrépita sociedade humana apresentada no filme. O proletariado, após séculos de “vício” ao trabalho, após o uso de todos os recursos naturais pelo capital, resulta o abandono do exército de reserva trabalhador num planeta em processo de evacuação, confirmando a passagem de Lafargue em sua obra, quando fala que “a paixão cega, perversa e homicida do trabalho transforma a máquina libertadora em instrumento de sujeição dos homens livres: a sua produtividade empobrece-os” (p. 27).
O medo de não trabalhar do proletário no dogma capitalista, pode ser combinado com o medo que é colocado pelo andróide líder (Roy), quando no filme fala que “viver com medo é viver como escravo”, decretando a necessidade do Direito à preguiça, não só como forma do descanso do trabalho, mas também como a necessidade inalienável de ter o tempo necessário para compreender a existência e passar esse conhecimento adiante, motivo pelo qual os Replicantes rebelam-se e voltam à terra, o que dá o enredo ao filme e é sacramentado pela última fala do Replicante líder:

Eu vi coisas que vocês nunca acreditariam. Naves de ataques em chamas perto da borda de Orion. Vi a luz do farol cintilar no escuro, na Comporta Tannhauser. Todos esses momentos se perderão no tempo como lágrimas na chuva.
No final a grande experiência e ensinamento deixados pelos Replicantes é a necessidade da mesma coisa que Lafargue defende em sua obra:

...desde há um século que o trabalho forçado quebra os seus ossos, magoa as suas carnes, dá cabo dos seus nervos; desde há um século que a fome torce as suas entranhas e alucina os seus cérebros!

Ou seja, Direito à preguiça! Para pensarmos e logo, existirmos.



[1] É um filme norte-americano de 1982, do gênero ficção científica, realizado por Ridley Scott, e ilustra uma visão futurística de Los Angeles em novembro de 2019.
[2] O filme descreve um futuro em que a humanidade inicia a colonização espacial, para o que cria seres geneticamente alterados, andróides batizados como “replicantes”, que são utilizados em tarefas pesadas, perigosas ou degradantes nas novas colônias extraterrestres
[3] Para a Tyrrel Corp, fabricante dos Replicantes no filme, o intuito do avanço tencnológico na produção dos andróides Nexus 6 é fazê-los “mais humanos que humanos”, logo, sofrem um questionamento mais incisivo sobre a razão existencial, como os humanos.
[4] O Direito à Preguica é um panfleto político escrito por Paul Lafargue que polemiza com as visões liberais, conservadores e até marxistas do trabalho


quarta-feira, 15 de junho de 2011

INOVAÇÃO E AGREGAÇÃO DE VALOR PARA O SETOR COUREIRO-CALÇADISTA: UM FATOR DE CIÊNCIA E TECNOLOGIA

Para Joseph Alois Schumpeter[1], a inovação é o fator preponderante para o desenvolvimento econômico. O pensamento Schumpeteriano argumenta que, o capital consolidado na economia é utilizado para financiar, por meio do crédito, os empreendedores que são os responsáveis pela inovação, agregando valor na economia e promovendo o desenvolvimento econômico.
A partir de um determinado nível de investimentos, incentivados por meio da concessão de financiamentos de longo prazo para empreendedores comprometidos com a inovação, permitiria a manutenção e/ou ampliação do nível de consumo, motivado pela manutenção e/ou aumento do nível de renda e pela manutenção e geração de empregos, propiciando assim, uma economia forte e competitiva com alto valor agregado[2].
Tendo a inovação como fator de desenvolvimento econômico, principalmente como fator de vantagem competitiva e agregação de valor, tem-se a necessidade de sua aplicação a partir da adoção de determinados tipos de políticas públicas de desenvolvimento regional como as i) políticas de mobilização e valorização de capital endógeno (empreendedorismo, microcrédito, etc.); ii) políticas de promoção e valorização de externalidades da competitividade empresarial (arranjos produtivos locais, pólos de inovação tecnológica, etc); iii)  políticas de promoção de competitividade territorial (qualificação profissional, publicidade territorial); iv ) Políticas territoriais de aplicação do conceito de estratégias de eficiência coletiva (redes de cooperação, extensão empresarial, etc.).
Essas políticas são realizadas a partir da transversalidade governamental, e devem contar com a necessária participação institucional da indústria e das universidades, formando assim uma política de desenvolvimento regional de ciência e tecnologia tendo como base o paradigma da “Hélice Tríplice”: Universidade – Indústria – Governo.
Para Etzkowitz (2009,)[3] a Hélice Tríplice:

“é a chave para a inovação em sociedades cada vez mais baseadas no conhecimento. Uma vez que a criação, disseminação e utilização do conhecimento se movem a partir da periferia para o centro da governança e produção industrial, o conceito de inovação, em produtos e processos, está sendo, ele próprio, transformado [...] A Hélice Tríplice descreve este novo modelo de inovação e ajuda alunos, pesquisadores e legisladores na abordagem de questões do tipo: como ampliamos o papel das universidades no desenvolvimento econômico e social e regional? Como os governos, em todos os níveis, podem incentivar os cidadãos a desempenharem um papel ativo na promoção e inovação e, inversamente, como os cidadãos podem incentivar seus governos a fazerem isso? Como as empresas podem colaborar uma com a outra e com universidades e governos para se tornarem inovadoras? Quais os elementos-chave e os desafios para que tais metas sejam alcançadas?”

Assim, a inovação como um instrumento de agregação de valor, levaria o governo em parceria com de universidades e empresas, a desenvolver uma política pública de ciência e tecnologia a partir da adoção de ações que permitissem a sinergia necessária para a maturação da Hélice Tríplice.
Assim, o governo seria o incentivador da inovação nos processos produtivos, juntamente com a indústria, formada pelos trabalhadores (que são os detentores do conhecimento e da habilidade prática) e os empreendedores (que buscam o financiamento e realizam a gestão do negócio); das universidades e centros de pesquisa (que concentram os agentes interessados na criação e ciência) e o governo (que busca corrigir os espaços que o mercado não está presente e assim possibilitar o desenvolvimento econômico e social de seu povo).
No caso do setor coureiro-calçadista, objeto da Câmara Temática do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social do Rio Grande do Sul - CDES RS (Conselhão), as ações de Hélice Tríplice devem ser direcionadas para atender ações prioritários concertados pelos conselheiros membros, como a parceria de entidades de profissionais como o Conselho Regional de Economia do Estado (CORECON) e o Conselho Regional de Administração (CRA) no Rio Grande do Sul, juntamente com as Centrais Sindicais, Sistema “S”, além de políticas de parceria com entidades e institutos nacionais de pesquisa, para incentivar a pesquisa e inovação no setor coureiro-calçadista e na sua cadeia produtiva, por meio de bolsas de pesquisas nas universidades inseridas nas regiões produtoras de calçados, para incentivar não só os pesquisadores, mas também os estudantes-trabalhadores do século XXI, que possuem “intimidade” com a tecnologia e são atraídos por ela. 
A base metodológica apresentada aqui pode ser utilizada em todo setor econômico, principalmente naqueles que utilizam o uso intensivo de mão de obra na produção, uma vez que o Brasil começa a ter como característica na sua base industrial o uso intensivo de tecnologia, para tanto, surge a necessidade de inovação.
Diante disso, torna-se necessário, que o Rio Grande do Sul esteja inserido na vanguarda da inovação tecnológica, por meio de políticas públicas e a adoção da Hélice Tríplice.




[1] A introdução de uma inovação no sistema econômico é chamada por Schumpeter de “ato empreendedor”, realizada pelo “empresário empreendedor”, visando a obtenção de lucratividade, que, segundo o autor, é o motor de toda a atividade empreendedora.
[2] LIMA, Mário de. A eficiência das medidas da política do governo brasileiro frente à crise financeira internacional. Artigo publicado no Jornal Contexto Econômico – Ano XIV, nº 58, dezembro de 2008.
[3] ETZKOWITZ, Henri. Hélice Tríplice: universidade – industria – governo, Inovação em Movimento. ediPUCRS. Porto Alegre, 2009.